quarta-feira, 1 de abril de 2015

O que é empatia para você?

O que os pais podem fazer para criar seus filhos com a capacidade de sentir empatia?

Por: João Mendes de Almeida Jr.

Estas foram as perguntas feitas aos pais durante as reuniões do Ensino Fundamental 2 e do Ensino Médio com o objetivo de estimular a participação e a discussão do tema das relações e dos conflitos que tem surgido de forma cada vez mais marcante no universo das relações escolares. Algumas das respostas obtidas estão em destaque no texto.

A escola é um lugar privilegiado para o exercício da convivência respeitosa. Não podemos idealizar uma convivência neste ambiente com a total ausência de conflitos, uma vez que aqui se encontram, diariamente, centenas de pessoas tão diferentes entre si. Porém, se bem conduzidos, os conflitos são uma oportunidade de crescimento pessoal importante. Cabe, portanto, às instâncias educadoras formais – escola e família – ensinarem nossos jovens a resolverem os conflitos que surgem nas relações interpessoais de maneira a buscar sempre o consenso a partir do respeito pelo sentimento do outro. Quando não se considera o outro na solução dos próprios problemas de convivência, corre-se o risco da desumanidade.


Por trás da maior parte dos conflitos que surge no cotidiano escolar – sobretudo entre os adolescentes – e também fora dos muros escolares, está justamente a falta de empatia. É praticamente na escola, hoje em dia, que crianças e adolescentes são confrontados com a presença do outro, do diferente, fora da proteção familiar. Frutos de uma sociedade que preconiza comportamentos egocentrados e egoístas, crianças, adolescentes e jovens têm cada vez mais dificuldade de perceber e respeitar os limites do próximo. Reside aí uma das maiores dificuldades no trabalho da orientação educacional nos dias de hoje.

Empatia está relacionada a uma sensibilidade das pessoas para perceber o mundo para além de sua perspectiva individual.  Essa sensibilidade também diz respeito a reconhecer sentimentos, afeição, experiências comuns a todos.  Acho que buscar sempre dar exemplos é o que os pais podem fazer. (Pais do 7º e 8º anos)
Empatia é poder se destacar para o lugar do outro. Tentar imaginar uma experiência do ponto de vista do outro, considerando o contexto em que se está inserido, crenças, valores, hábitos, etc. Acho que em 1º lugar devemos estimular nossos filhos a perceber que o que sentem, pensam e observam não é a única maneira. (Pais do Ensino Médio).

Como estímulo para a participação dos pais nas reuniões e para estimularmos o debate, exibimos dois vídeos selecionados entre os vários que abordam o tema no site de palestras TED. Neles pessoas de diferentes especialidades discutem sobre a capacidade de nós, humanos, enxergarmos o próximo e suas necessidades, de compartilharmos o que é nosso e sobre nossa capacidade de sentirmos compaixão.

Links:

Frans de Waal – “Comportamento moral em animais” - Empatia, cooperação, justiça e reciprocidade -- se importar com o bem estar de outros parece ser uma característica muito humana. Mas Frans de Waals nos mostra vídeos surpreendentes de testes comportamentais, sobre primatas e outros mamíferos, que demonstram quantas características morais compartilhamos. 

Sam Richards – “Uma experiência radical em empatia” - Ao mostrar um passo a passo através do processo de pensamento, o sociólogo Sam Richards monta um desafio extraordinário: será que entendemos — não aprovamos, mas entendemos — as motivações de um rebelde iraquiano? E ainda, será que qualquer um pode realmente entender e ter empatia uns com os outros?

Daniel Goleman – “Sobre a compaixão” - Daniel Goleman, autor do livro "Inteligência Emocional", pergunta por que nós não somos mais misericordiosos por mais tempo.

Joan Halifax - A líder espiritual budista Joan Halifax trabalha com pessoas no último estágio da vida (em instituições para cuidados paliativos em final de vida e no corredor da morte). Ela conta o que aprendeu sobre compaixão diante da morte e faz uma poderosa introspecção sobre a natureza da empatia.

Krista Tippett – “Ressignificando a compaixão” - A palavra "compaixão" — normalmente associada a gente perfeita ou à pieguice — se distanciou da realidade. A jornalista Krista Tippett desconstrói o significado de compaixão contando algumas histórias comoventes, e propõe um novo e mais alcançável sentido para a palavra.


Durante os encontros com os pais, expusemos o trabalho realizado pelos tutores e pelos orientadores do Hugo Sarmento, desde o 6º ano até o 3º ano do Ensino Médio, com a finalidade de desenvolver nos alunos uma visão crítica das relações baseadas na empatia, na compaixão, no desenvolvimento do senso de justiça e no respeito ao próximo, reforçando exemplos e atitudes positivas. Definimos alguns temas pontuais escolhidos de acordo com as características de cada faixa etária e que são trabalhados ao longo de todo o ano letivo.

6º ano – Bullying
7º ano – Preconceito
8º ano – Sexismo / Sexting
9º ano – Protagonismo 
Ensino Médio – Uma visão crítica da sociedade e do comportamento humano


Mas, afinal, o que é empatia?

O termo empatia foi utilizado pela primeira vez por E.B. Titchener, psicólogo, e origina-se da palavra grega empátheia, que significa "entrar no sentimento". Para alcançarmos este estágio é necessário deixar de lado nossos próprios pontos de vista e valores para poder entrar 
no mundo do outro sem julgamentos.

Como desenvolver, então, a empatia?

É preciso praticar muito para colocar o sentimento à frente das palavras. É mais do que compreender; é conseguir se colocar no lugar do outro e, por consequência, sentir como o outro. Você se sensibiliza com as dificuldades e o sofrimento, e é isso que te torna mais humano e te possibilita realmente ajudar alguém. Entrar em contato com os próprios sentimentos é a base para desenvolver a empatia e, a partir daí, a compaixão. A pergunta que inicia este processo é “Como eu me sentiria na mesma situação e/ou na mesma condição do outro?”. Quando tenho clareza dos meus sentimentos e consigo expressá-los com segurança, tenho mais possibilidade de sentir pelo outro. 

“Acredito que empatia seja o sentimento e a atitude de se colocar verdadeiramente no lugar do outro, parar para observar, ouvir, estar atento ao outro. Vivemos numa sociedade frenética...mas a convivência precisa ser social, íntegra. Viver em comunidade é desafiador, mas imagino que seja o caminho para tentarmos respirar de forma pura. Acho que o exemplo é tudo, precisamos praticar atitudes empáticas para que as crianças e os jovens tenham e percebam esta ação de perto, ali, no dia a dia.” (Pais de 7º e 8º anos)

Este “treino”, esta prática nos permitirá um novo olhar sobre as relações e a passar a agir, quase que instintivamente, não em função dos outros, mas sempre levando em consideração nossa posição de ser social. 

quarta-feira, 25 de março de 2015

OS ESTUDOS SOBRE ESPAÇO E FORMA

ENSINAR E APRENDER GEOMETRIA É UMA ARTE: OS ESTUDOS SOBRE ESPAÇO E FORMA

Por Theodora Maria Mendes de Almeida

Quando eu era aluna aqui nesta escola, tínhamos uma matéria chamada Desenho Geométrico. 
Já aprendíamos sobre as formas, a utilizar o compasso, a régua e o esquadro e, como não podia deixar de ser, tínhamos um estímulo para o uso artístico deste aprendizado, que ia além da matemática. Conhecíamos muitos artistas que faziam uso das formas em suas obras e éramos estimulados a produzir, apurando a aprendizagem da estética.

 

A Matemática ensinada na escola, hoje, é repleta de conteúdos e entende-se  que é preciso compreender o sentido que ela tem para a vida dos alunos. Os estudos sobre o ESPAÇO e a FORMA continuam sendo importantes e necessários para a compreensão de mundo. 
A escolha da metodologia por nós utilizada, de resolução de problemas, amplia as possibilidades, o interesse e o envolvimento dos alunos por esta área.
Com as crianças pequenas, que estão sendo apresentadas a estes conteúdos, começamos propondo jogos com os blocos de madeira, nomeando, identificando e explorando suas possibilidades de uso. Enquanto brincam, estão pensando sobre tudo isto. 


 

Neste contato, vão aprendendo o vocabulário geométrico, a terminologia correta de cada figura e de suas partes. É o que chamamos alfabetização matemática.
Assim, cada vez mais vão desenvolvendo as habilidades de observação e investigação.
Nos desafios e na representação dos jogos, as crianças já vão aprendendo a traçar sua compreensão sobre o espaço.
A escolha da Coleção SABER MATEMÁTICA, de Kátia Smole e Maria Ignez Diniz – como material didático inicial para os alunos do Fundamental I – corresponde a esta concepção de trabalho que inclui a arte e a representação.

 
Trabalhos inspirados na obra de Wassily Kandinsky

No contexto de estudos em outras áreas, como nas Ciências Sociais, os alunos também vão conhecendo como outros povos e culturas utilizam as formas em sua arte.

Arte Africana

Arte Indígena

Arabescos

ORIGAMI e TANGRAM

Recursos como a dobradura, o Origami,  e quebra-cabeças, como o Tangram, ajudam os alunos a fazer comparações, classificações, composições e representações das figuras, além de desenvolver o raciocínio e a coordenação motora.

 

Na representação tridimensional, os alunos vão trabalhando com outras propriedades das formas. São tratados simultaneamente os sólidos geométricos e as figuras planas e o entendimento vai sendo ampliado: cubos, cones, cilindros, esferas, paralelepípedos, pirâmides... A sofisticação das pesquisas e conhecimentos vai aparecendo nos estudos sobre os ângulos, os vértices, poliedros e não poliedros,... 

 

 
O papelão, a madeira, o isopor, entre outros tantos materiais, ajudam a projetar e a realizar as ideias.

Os jogos e a tecnologia trazem a dimensão do processo permanente de evolução da ciência, pensando na representação, nas aplicações práticas das necessidades do dia a dia e também da diversão.



Creio que nossos alunos vivem, hoje, um momento ampliado daquele que vivi como aluna, podendo aprender ainda mais sobre os mistérios da Matemática, instigados pelas propostas, motivados em sua curiosidade natural.

Outras dicas para saber mais sobre Geometria:

- Polígonos, centopeias e outros bichos – Nilson José Machado – Ed. Scipione - 2000
- A geometria na sua vida – Rosa Maria Herrera e Carlo Frabetti – Ed. Ática, São Paulo –  2003
- Minha mão é uma régua – Kim Seong-Eun e Oh Seung-Min – Ed Callis – 2006
- Travessuras de Triângulo – Suzana Laino Candido – Ed. Moderna – 2001
- A história do Vovô Tang – Ann Tomperf – Ed. Salesiana – 2007
- A Matemática das sete peças do tangram – E.R. Souza – Caem – 1995
- Dobradura nas aulas de Matemática – Imenes – Ed. Scipione – 1995

quarta-feira, 18 de março de 2015

Olhar curioso, espírito investigativo e aquela vontade de desvendar todos os mistérios do mundo!

Por Gaby Vignati

É com empolgação e muita vontade que os alunos do 2º ano esperam pelo início das atividades no laboratório da escola. Eles já trazem em si uma forma natural de encarar o mundo e os seus “por quês” são a expressão da sede de conhecimento que têm para desvendar tudo aquilo que os cerca.


Desde o momento de colocar o jaleco, até a entrada no laboratório, os alunos já vão se preparando e encarando tudo com muita seriedade. Afinal, atuar como um cientista requer uma nova postura para olhar, manusear, se locomover, perguntar, trocar com o colega. Para eles, as qualidades mais importantes de um bom cientista é ser curioso, cuidadoso, atento, persistente e criativo. Nas aulas, pesquisamos e discutimos, a partir da leitura de alguns textos, a atuação e a importância dos cientistas.

Mas o que há no laboratório? Vimos as vidrarias e descobrimos o nome das mais usadas: béquer, proveta, funil, pinça, tubo de ensaio, lâmina e lamínula, entre tantos outros dos quais, facilmente, guardaram os nomes! A vontade é a de mexer, usar, aprender! E assim, começamos nossos trabalhos explorando os materiais para falarmos sobre volume, observarmos o acervo de animais, dando início ao manuseio do microscópio e das lupas, enriquecendo os estudos da sala de aula. Tudo no ambiente do laboratório desperta o interesse e os olhares curiosos, como aconteceu com o acervo de animais. A expressão facial refletia o grau de encantamento! Para os alunos, a sensação é a de descobrir um universo novo, cheio de possibilidades.

“Uau, olha o tamanho dessa aranha!”
“Gaby, que bicho é esse?”
“Que líquido é esse dentro do vidro?”
“Olha, dá pra ver o ferrão!.”

Para essa iniciação científica é necessário experimentar aspectos primordiais das áreas que envolvem as Ciências Naturais e seus temas transversais: saúde, meio ambiente e cidadania. A metodologia usada é a de levantamento de hipóteses, busca por informações, experimentação e comprovação, conclusões.

E essa empolgação só tende a crescer!  Pois este é só o início de todo um trabalho de Ciências na escola. Acreditamos que crianças curiosas, motivadas e querendo aprender, só podem contribuir positivamente para o melhor dos futuros! Eles serão os futuros cientistas!

     Conhecer!
     Observar!
     Experimentar!
     Ser curioso!
      Levantar hipóteses!
      Registrar!

quarta-feira, 11 de março de 2015

Aulas de Culinária para crianças da Educação Infantil

Por Theodora Maria Mendes de Almeida

“A vida de um grupo tem vários sabores... No processo de construção de um grupo, o Educador conta com vários instrumentos que favorecem a interação entre seus elementos e a construção do círculo com ele. 
A comida é um deles.
É comendo juntos que os afetos são simbolizados, expressos, representados, socializados.
Pois comer junto, também é uma forma de conhecer o outro e a si próprio.
A comida é uma atividade altamente socializadora num grupo, porque permite a vivência de um ritual de ofertas. Exercício de generosidade. Espaço onde cada um recebe e oferece ao outro o seu gosto, seu cheiro, sua textura, seu sabor.
Momento de cuidados de atenção.”
Madalena Freire, do livro “Grupo”


Há muito tempo realizamos com nossos alunos atividades que envolvem o preparo de alimentos.  No começo, na Educação Infantil, isto acontecia de forma bastante informal, mas já percebíamos o enorme fascínio das crianças pelo espaço da cozinha, muitas vezes uma área “proibida”, restrita apenas aos adultos.
Com o tempo, estas atividades foram tendo uma importância muito grande no dia-a-dia da Escola. O interesse dos alunos foi contagiando a todos. Em 96, tornamos a proposta da Culinária parte integrante do nosso currículo de Ciências Naturais. A curiosidade e o espírito de investigação foram sendo alimentados (literalmente) pelas experiências constantes e contínuas que envolviam o desenvolvimento das primeiras atitudes científicas.
Estes elementos foram enriquecendo o trabalho e nos levando a criar outros caminhos. Foram aparecendo, no desenvolvimento do processo, as demais áreas de conhecimento: a Matemática através das medidas (de quantidade, de tempo) e jogos de estimativa; a Língua Portuguesa na leitura e na escrita dos rótulos e receitas; a Geografia e a História, através de receitas típicas e suas origens culturais; a Arte de modelar e imaginar novas formas de preparar os alimentos, nos deram a possibilidade de realizar um trabalho completo e integrado.

Além disso, é claro, o imenso prazer pelo resultado na hora da “degustação”!

“Há mais fenômenos na cozinha do que pode imaginar nossa vã (e deliciosa) gastronomia. Mas não são fruto do acaso nem passe de mágica: na verdade, resultam de importantes e às vezes complexas reações químicas. A cozinha é, portanto, um grande e divertido laboratório científico, e conhecê-lo em detalhes pode ser uma viagem fascinante.”
Do livro “Um cientista na cozinha”, de Hervé This

 

Assim, estes são nossos objetivos principais:
- Propor atividades que propiciem a exploração de fatos cotidianos;
- apontar as questões relativas à qualidade da alimentação, para o desenvolvimento de uma vida saudável;
- enfatizar os cuidados necessários com higiene e segurança no preparo dos alimentos;
- explorar objetos variados, levantando suas características de forma, tamanho, espessura, textura, cor, odor, sabor, entre outras;
- possibilitar a observação de mudança de estado físico: líquido para sólido, líquido para gasoso, de acordo com a temperatura e a intervenção nos objetos;
- estimular o levantamento de hipóteses sobre os resultados que seriam obtidos;
- possibilitar o contato com a leitura de rótulos e das receitas, ampliando o vocabulário;
- alertar para a necessidade de reaproveitamento de embalagens e reciclagem do lixo;
- transmitir conteúdos socioculturais, como a origem de receitas típicas de lugares específicos;
- valorizar a socialização por meio da troca e da união do grupo na hora de preparar e experimentar os alimentos.

 

Nossa experiência foi compartilhada no site do Educar para Crescer. Acesse 

quarta-feira, 4 de março de 2015

Da ponta do verso

Desde o início de sua vida escolar, os alunos têm contato com a nossa cultura popular, pelas cantigas de roda e brincadeiras cantadas da nossa tradição oral e este aprendizado continua ao longo de todo o curso, com diferentes gêneros abordados. Neste texto para o nosso blog, o Prof. Paulo, que dá aulas de Português no Ensino Médio, nos faz mergulhar na beleza destes textos em verso.

Da ponta do verso
Por Paulo M. Ribeiro

O verso é a escrita antes da escrita. Mais que qualquer outra mensagem linguística, aquela que está em verso é capaz de, passando pelo coração, ficar marcada, palavra por palavra, na nossa memória. Ou o reverso: a mensagem versificada entra pela cabeça e se aloja no coração – uma ideia mais condizente com a expressão de cor. Seja verso ou reverso, o fato é que quando as palavras estão arranjadas desta forma o saber “timtim de cor por timtim e salteado” não só faz mais sentido como também é mais fácil. Daí o importante papel do texto versificado na transmissão de conhecimentos, histórias e tradições nas culturas orais.

Dos elementos que concorrem para dar ao verso essa característica mágica, a métrica, que definimos como o comprimento do verso, é um dos mais importantes. É ela que confere ao poema a regularidade sobre a qual o ritmo será fundamentado, funcionando no texto como o compasso funciona na música.

No Ensino Médio, momento em que leitura se torna Literatura – a disciplina –, que o estudo sistemático do poema e de seus recursos formais, como a métrica, acontece de fato. Enquanto lidam com a escanção – o ato de analisar a métrica dos versos de um poema – essas pessoas não apenas percebem a articulação entre conteúdo e forma, como também descobrem as formas canônicas que se desenvolveram ao longo da história. Dessas formas tradicionais, a primeira que discutimos e conhecemos é a redondilha (para quem ainda não sabe, o verso composto por cinco ou sete sílabas poéticas: as redondilhas menor e maior).

A redondilha em si mantém uma íntima relação com a cultura popular e as tradições orais: algumas pessoas, estudiosas do assunto, afirmam que o tamanho da redondilha está em conformidade com nossos ritmos de fala e respiração e que esse fator fisiológico é um dos responsáveis pelo sucesso da redondilha, que sempre esteve na boca do povo. Ao longo de toda a idade média a redondilha dominou um cenário em que a palavra escrita era pouquíssimo acessível para pouquíssimas pessoas.

A redondilha foi o metro preferido na literatura ocidental escrita até o advento do verso de dez sílabas, durante o renascimento (séc. XVI). Mas na língua oral a redondilha não morreu com o fim do trovadorismo: a cultura popular manteve-a e ela sobreviveu e vive nas canções populares (e em outras formas de verso popular, como o cordel), como os desafios e repentes do nordeste, as modinhas de viola do sudoeste, a trova gaúcha. A análise dos trechos abaixo ilustra essa característica:

“Quan/ do/ tu/ do/ co/ me/ çou/           7
O/ Cri/ a/ dor/ pen/ sou/ bem/             7
Só/ e/ le/ po/ de/ di/ zer/                      7
De on/ de a/ po/ e/ si/ a/ vem/            7  (veja as elisões acontecendo nesse verso)
E/ quan/ do e/ le/ fez/ o/ mun/ do      7
Fez/ po/ e/ si/ a/ tam/ bém/”               7
(João Paraibano e Sebastião Dias)

Link do repente: https://www.youtube.com/watch?v=-CQqa70qmSw

Eu/ o/be/de/ço o/ Ta/bor/da               7
Flo/rei/a a/ gai/ta/, gai/tei/ro                7
Que/, fa/zen/do/ mi/nhas/ tro/vas      7
Per/co/rri o/ Bra/sil/ in/tei/ro                7
E ho/je/ vim/ pra/ Pa/sso/ Fun/do      7
Can/tar/ com/ Pe/dro/ Ri/bei/ro”        7
(Valdomiro Garcia)

Link da trova: https://www.youtube.com/watch?v=NAnGADyiBPI

Além desses cantares populares, a redondilha também é presença constante nas brincadeiras infantis e canções de ninar:

“Ci/ran/ da,/ ci/ ran/di/nha                       6
Va/mos/ to/dos/ ci/ran/dar/                     7
Va/mos/ dar/ a/ mei/a/ vol/ta                  7
Vol/ta e/ mei/a/ va/mos/ dar/”                 7

Nos versos do repente (quem viu o vídeo acima ouviu), um dos cantadores afirma que seu versejar se aprende na vida, não na escola. E aprendendo assim, foi capaz de fazer versos totalmente precisos e regulares. Como estes acima, os exemplos de técnica e elaboração na língua oral são inúmeros, basta termos ouvidos e pensamentos atentos o suficiente para perceber o quão presentes eles estão em nossas vidas e quanto saber e técnicas elaboradas se desenvolvem neles. 

O fantástico de começar pela redondilha é que suas características e sua história podem alimentar também uma discussão que é central no português da primeira série e está sempre presente nas séries seguintes: a relação entre língua escrita e língua oral, entre a cultura erudita e a popular, entre prestígio e desprestígio. Ao longo de todos os ciclos, inclusive (diria até: especialmente) durante o Ensino médio, devemos dar para as pessoas que estudam a possibilidade de pensar criticamente o valor das manifestações culturais e linguísticas de todos os níveis. Nesse caso específico, a redondilha nos ajuda a ver que não é apenas na cultura escolarizada e estudada que existe técnica e arte, mas que nas manifestações mais espontâneas do povo há sabedoria, elaboração e beleza.

E o fantástico desse fantástico é perceber quantas portas e quantos saberes uma pontinha de um detalhe, como o tamanho de um verso, pode render conforme nós nos enredamos no seu desenredar.

Os: o “timtim de cor por timtim e salteado” é do Guimarães Rosa, e está no incrível conto Pirlimpsiquice, do livro Primeiras estórias.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Lição de Casa – Uma atividade importante para a formação estudantil

Por Rosana Barbosa Nunes e Maria Angélica D. Mendes de Almeida

Young Girl Reading (1877). Seymour Joseph Guy

O ano letivo sempre começa com muita animação e envolvimento por parte de todos, mas, como manter esta animação? 

Aqui no colégio, a lição de casa aborda conteúdos importantes relacionados ao trabalho desenvolvido em sala de aula e, por essa razão, as propostas são diversificadas: podem ser um complemento à aula dada ou atuar como mais um espaço de reflexão sobre determinado assunto, ou ainda, “disparar” ou propor novas questões para serem pensadas pelo aluno e que serão posteriormente trabalhadas em sala.

Pretende-se, por meio desta atividade, contribuir para a formação de estudantes comprometidos com suas tarefas e preocupados com a qualidade de suas produções.

A partir do Grupo 5, introduzimos de forma sistemática as lições de casa, que são levadas pelos alunos uma vez na semana, aumentando gradativamente nas séries posteriores do Ensino Fundamental.

Neste momento em que a lição de casa passa a fazer parte da rotina da criança, é fundamental que os pais dediquem atenção especial, definindo horários para o trabalho, e escolhendo, com a criança, um local adequado para a realização das tarefas.

Antes de enviar para casa, temos um momento reservado para a apresentação das propostas, definindo as tarefas e explorando as possibilidades variadas de sua execução. Outro momento desta rotina também é destinado à retomada da lição anterior, podendo acontecer com o grupo todo ou a professora propondo uma revisão em pequenos grupos. 

Nossa preocupação não se restringe apenas aos conteúdos, mas à possibilidade de promover a socialização dos procedimentos utilizados e sanar as dificuldades encontradas pelos nossos alunos. O foco não é apenas se o aluno fez ou não seu trabalho corretamente, mas, se precisou de ajuda, como pensou para realizá-lo, ampliando, desta forma, a discussão sobre a postura de cada um frente às tarefas escolares.

Como os pais podem ajudar os filhos em casa:

Procurando saber se tem lição e se ela foi executada;

• Dispondo de um tempo diário para verificar ou acompanhar as tarefas do filho;


• Garantindo que haja, em casa, lugar disponível para que os deveres sejam feitos com  tranquilidade e concentração – nunca na sala perto de televisão ou na cozinha. Este local   deve ser bem iluminado, silencioso e com espaço para seu filho dispor os cadernos, livros e demais materiais;

• Garantindo que neste ambiente não haja elementos que dificultem a concentração, como  televisão ligada, videogame etc.;

• O acesso à Internet deve ser acompanhado de perto pelos pais: seu filho está mesmo usando o computador para fazer alguma lição?;

• Ajudando seu filho a criar uma rotina de estudos. Estabelecendo, com ele, um horário  diário para a realização das tarefas. Para os maiores, pelo menos 2 horas diárias para as  tarefas e leitura de livros paradidáticos.

O que é esperado dos alunos:

Que estabeleçam uma rotina, um tempo para o estudo
• Que mantenham seus materiais em ordem e em bom estado
• Que as tarefas sejam realizadas com capricho e dedicação
• Que não realizem a tarefa caso não tenham entendido a proposta, para que suas dúvidas sejam detectadas
• Que leiam os livros da Roda de Biblioteca
• Que revisem a lição antes de entregá-la
• Que contribuam com informações, caso sejam solicitadas
• Que pesquisem na Internet, sempre sob a supervisão de um adulto

Conforme os alunos vão crescendo e desenvolvendo suas habilidades como estudante, as exigências vão sendo ampliadas

Por que é importante que o aluno faça suas lições de casa diariamente no Ensino Fundamental II e Médio?

Porque esta é uma atividade que complementa o processo de aprendizagem e, ao realizá-la, o aluno tem a oportunidade de:

Desenvolver, cada vez mais, a autonomia e a responsabilidade para os estudos

É uma ocasião em que o aluno se vê sozinho para lidar com o que foi trabalhado em sala de aula. Além disso, tem que se organizar para realizar suas lições no dia marcado pelo professor e com a qualidade exigida por ele;

Pensar sobre seu próprio entendimento dos conteúdos trabalhados

O aluno pode constatar quais conteúdos ficaram bem entendidos e quais precisam de mais atenção durante as aulas – perguntar mais em sala, ler textos de apoio, realizar mais atividades etc. – para que ele possa avançar;

Praticar as habilidades aprendidas 

As lições podem servir para a sistematização de conceitos e procedimentos das diversas disciplinas estudadas.

Por que é importante para o professor que o aluno faça a lição de casa?

Quando faz a correção da lição em sala, o professor tem a oportunidade de perceber as dificuldades dos estudantes e seus avanços no entendimento do conteúdo estudado. Com isso, ele pode programar a necessidade de reforçar um conteúdo já trabalhado ou a passagem para a próxima etapa da programação dos conteúdos.

O aluno que não traz a lição de casa perde dois momentos importantes do processo de aprendizagem: 

1) aquele em que ele se vê sozinho, em casa, frente aos desafios do conhecimento e 

2) aquele em que ele checa, na hora da correção, junto com o professor, quais foram seus avanços e quais são suas necessidades de aprofundamento nos estudos.

Para saber mais, acesse o link:

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O afeto e o livro

por Lia Granado, professora do 5º ano

Começo de ano letivo, alunos novos, vínculos afetivos a serem construídos e estreitados. Vínculos estes que são de vital importância para que o aprendizado aconteça de maneira significativa e prazerosa. Vínculos que são essenciais no dia a dia, nas pequenezas da sala de aula e na formação dos alunos enquanto pessoas que farão a diferença.
Acreditamos que um dos momentos para que estes vínculos sejam estreitados em sala de aula é o momento da leitura mediada pelo professor. É neste momento que o professor e o aluno embarcam juntos em uma aventura, mediada por um objeto mágico – um livro! As emoções, os sentimentos, as preferências ficam transparentes neste momento e, neste compartilhamento, vamos nos conhecendo e criando laços.
Por isto, este objeto mágico precisa ser muito bem escolhido. Primeiro o professor precisa gostar do que está lendo – só assim poderá despertar o interesse do aluno e criar este clima delicioso em sala de aula. Em nossas reuniões de planejamento, antes do início do ano, discutimos qual seria o nosso primeiro livro de leitura mediada.

Cada professora relatou o motivo de sua escolha:

A VIDA DO ELEFANTE BASÍLIO - Erico Verissímo, Editora Cia das Letrinhas

“Este livro conta a história de um elefante, desde o seu nascimento, e de suas aventuras. O livro é cheio de emoções e mexe com o imaginário das crianças. Gosto muito do livro, pois os alunos tendem a se colocar no lugar do personagem e, junto com ele, vive suas alegrias, tristezas e lembranças. Esta é uma habilidade do grande Érico Veríssimo, por isto lemos toda a coleção.”
Gaby, professora do 2º ano



”A primeira leitura do 3º ano é um clássico da nossa literatura:  Monteiro Lobato em “Caçadas de Pedrinho”. Os alunos curtem muito as aventuras de Pedrinho! Antigamente as crianças brincavam na rua, nos sítios e este livro retrata muito bem este tipo de infância. Os alunos estão tão fascinados que estão realizando algumas brincadeiras do livro no morro da escola ”

Débora, professora do 3º ano:


   CAÇADAS DE PEDRINHO
    Monteiro Lobato 
 Editora Globo

 A BRUXA DO ARMÁRIO DE LIMPEZA E OUTROS CONTOS Pierre Gripari
Editora Martins Fontes


“Este livro eu conheci no ano passado, quando o li para meus alunos e eles “amaram de paixão”. Os contos são divertidos e cheios de suspense. Faço sempre uma parada estratégica, no meio da leitura, que deixa os alunos muito curiosos e querendo saber o que vai acontecer. Estes momentos são bem importantes para criarmos vínculos, pois nos divertimos muito juntos e comentamos muito sobre os contos. Isso nos aproxima bastante.”

Isa, professora do 4º ano




“Sou apaixonada pelo Brasil e acabei escolhendo este livro, pois queria compartilhar com meus alunos um pouco das nossas histórias, do nosso rico patrimônio cultural. Além disso, este livro tem muitas histórias interessantes e intrigantes, que despertam a curiosidade dos alunos desta faixa etária. Quando estou lendo, posso observar seus olhos atentos, sorrisos, expressões de medo, enfim, estes momentos tão deliciosos para todos!”

Lia, professora do 5º ano



VIAGEM PELO BRASIL EM 52 HISTÓRIAS, Silvana Salerno
Editora Cia. das Letras

A leitura compartilhada é mesmo um momento destinado ao contato com a literatura, em que o aluno avança em sua competência leitora para enfrentar obras e autores diversos... mas essa conversa ficará para um próximo post!

E por falar nessa magia a que os livros nos remetem, não podemos esquecer que neste ano haverá a 4ª LIVROMANIA, um momento muito especial para a nossa comunidade escolar. Teremos encontros com escritores e ilustradores, diversas oficinas, atividades e livros selecionados.

Será no dia 25 de abril!  SAVE THE DATE!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O valor da equipe

Por Theodora M. Mendes de Almeida – Diretora Pedagógica


A escola é feita de pessoas. Aquelas que já fazem parte da equipe há mais tempo ajudam a receber as novas, para integração e nova configuração.

Em todo início de ano somamos talentos. Para trabalharmos juntos durante o ano é preciso que todos se reconheçam como parte da equipe, com suas vontades, seus saberes e dúvidas.

As semanas de encontros para planejamento foram preparadas para garantir as informações e a troca de ideias sobre o nosso Projeto Pedagógico, num ambiente de cooperação. Assim como os alunos, os professores, quando chegam, também vão procurando a sua turma, os seus pares de trabalho, vão se adaptando, se apresentando: Gabriela, Vivian, Márcia, Thiago, Flávia, Alessandra, Maúcha, Fernanda, Thiago, Fernando, Carolina, Regina.

Ao pensar sobre os temas relevantes para a formação da equipe deste ano, logo veio a ideia de trazer o documentário “TARJA BRANCA”, a fim de provocar no grupo de professores de alunos de todas as idades a reflexão sobre a importância do brincar. Ao favorecer a troca sobre as suas experiências como alunos e professores e também como pessoas que brincam, minha intenção era a de garantir a todos que nesta escola não só é permitido, mas recomendável garantir o tempo e o espaço da brincadeira.


Em outro momento, o tema proposto foi o uso das novas tecnologias na escola. Para apresentá-lo, convidamos a professora Rosangela Del Vecchio, educadora, especialista e mestre em Tecnologias Aplicadas à Educação (PUC/SP), que trabalha com formação de educadores, implantação de projetos em sala de aula e faz consultoria para escolas e instituições em projetos de Tecnologia Educacional. Seus conhecimentos sobre as ferramentas disponíveis e suas dicas de aplicação no dia a dia foram valiosos para o planejamento das ações na escola. Foi importante identificar o que já fazemos e o quanto precisamos aprender para ensinar.

O encontro com Daniela Alonso – especialista em educação inclusiva – enriqueceu as discussões que temos feito a respeito do trabalho que podemos desenvolver na escola, pensando na necessidade de incluir a todos. O que determina a lei? O que é possível ser feito? Como criar uma estratégia de trabalho que atenda às necessidades individuais. Estivemos juntos empenhados na busca por respostas e caminhos.

 

O assunto da economia de água trouxe os conhecimentos individuais e informações relevantes sobre como orientar os alunos. Para estes e tantos outros temas importantes que foram sendo trazidos, criamos estratégias diversas, como fazemos com os alunos: momentos de falar, de ouvir, de criar, de pensar, de agir... 

  

E assim, fomos nos conhecendo, fazendo combinados, traçando metas e planejando aquilo que consideramos relevante para a formação de nossos alunos, reconhecendo o valor de nossa equipe para o sucesso desta tarefa. 

E vamos lá, juntos, construir o ano de 2015!