quinta-feira, 7 de junho de 2018

As Ciências Humanas e o Estudo do Meio em Paraty

Por João Francisco Branco


Nos dias 26, 27 e 28 de maio deste ano, as alunas e os alunos do Ensino Médio partiram para a viagem de Estudo do Meio com destino a Paraty, no Rio de Janeiro. Podemos dizer que foram dias marcantes dentro de uma jornada que está envolvendo muita aprendizagem e a valorização da memória e da preservação. 

Eleger uma pedagogia estruturada por projetos requer uma aproximação entre as disciplinas e a busca constante por outras formas de ensino e aprendizagem. Dentro desta proposta, o Estudo do Meio tem papel central, marcando o aprendizado e as vivências de estudantes, professoras e professores; neste sentido, acabamos de retornar de um momento fundamental para a sequência das atividades que permeiam a proposta do Hugo para este ano, cabendo a lembrança de que a proposta que reúne toda a escola é abordar os vários aspectos  relacionados aos Problemas Ambientais Globais que estamos enfrentando. Trata-se de um grande desafio, porque o intuito não é somente elencar as causas, cenários e projeções para uma questão tão problemática, mas, também, conhecer experiências que enfrentam esta realidade e propõem soluções, alternativas e reflexões sobre este drama que interdita a vida no planeta.

E assim, foi com este propósito que Paraty entrou em nosso projeto interdisciplinar. Mas por que Paraty? Qual seria o lugar da História e das Ciências Humanas nos estudos sobre o processo de agressão ou de preservação do meio ambiente? Bem, a verdade é que Paraty é um daqueles lugares onde os percursos da História permitiram sua conservação; e assim cristalizou-se uma cidade, um lugar, com muitas particularidades. Isso tem a ver com a enorme diversidade relacionada ao bioma, a proximidade da Mata Atlântica, os recortes do mar, os rios, a beleza natural, o conjunto arquitetônico preservado... mas não só! Também tem muita relação com as diversas culturas que se mantém na região: Paraty é um lugar formado por povos. E entendemos que refletir sobre os problemas que colocam em risco a biodiversidade é também pensar sobre a preservação da diversidade cultural. 

A partir desta relação, escolhemos uma palavra para guiar esta jornada, ainda no espaço das aulas que antecederam nossa saída. Pensamos sobretudo nos diversos significados que a palavra preservação carrega... e assim esta ideia se tornou o fio condutor de nossa viagem: iniciamos uma jornada de reflexão sobre a preservação da memória e a preservação da diversidade cultural como elementos importantes para nos envolvermos com a questão da preservação ambiental. Afinal, antes de ir, nos perguntamos: o que significa preservar a memória social, a história de um país, suas culturas, preservar o meio ambiente? Qual a importância para a formação de uma sociedade? Como cuidar da memória? Como valorizar nossa cultura a partir da memória? O que tudo isso tem a ver  conosco individualmente e como grupo?

A grande possibilidade que o Estudo do Meio traz é a aventura do aprendizado e do conhecimento a partir da experiência. Sabendo disso, ao longo da preparação para a viagem tivemos o cuidado de introduzir os variados temas com os quais os/as estudantes iriam se deparar. A História de Paraty foi abordada a partir de diferentes ângulos que podem se complementar: a História da cidade, a importância do Patrimônio como preservação da Memória, da arquitetura e da cultura, as festas tradicionais de Paraty, as questões ambientais, as populações tradicionais e os povos caiçaras da região (sua cultura, saberes, viveres). Uma introdução com a dosagem certa para não retirar da viagem o prazer da descoberta e da memória que é criada depois de se viver a experiência. Por alguns dias, o aprender encontrou outros caminhos e novos contornos, tocando diretamente a realidade.

O sentido da preservação, tão intrínseco aos cuidados com o meio ambiente, também se nota no reconhecimento de Paraty como Patrimônio. Aprendemos que a designação de Patrimônio Histórico traz dentro de si a importância da preservação da História e da cultura de um lugar, e isto só é possível se nos preocuparmos com a preservação da memória que remete a este espaço. Ou seja, não bastava direcionar o olhar e a escuta apenas para uma preocupação com a preservação ambiental que estivesse separada da preservação das pessoas e das culturas tradicionais. Como nos contou a guia Regina, durante nosso percurso pelo centro histórico, as culturas populares de Paraty fazem questão de se colocarem como a memória viva da cidade; em suas palavras, “vivem o ontem, o hoje e o amanhã”, exatamente porque fazem parte daquele lugar.

 

É gratificante notar que este pensamento se concretizou durante e depois que retornamos da viagem. Nos textos que escreveram sobre o significado da ida a Paraty, os estudantes exercitaram, com muita propriedade, este olhar que foi capaz de articular as propostas de cada atividade, como observar as construções arquitetônicas, a importância dos manguezais e os efeitos causados pela ocupação urbana, a análise de diferentes amostras de água e a responsabilidade que temos em relação a seu uso, sem deixar de enxergar as pessoas que fazem parte deste lugar. Problematizaram inclusive a questão da ocupação do centro histórico de Paraty, observando o acúmulo de resíduos causado pela intensa circulação de turistas, as subidas das marés e seus efeitos na parte urbana da cidade, enfim, estes momentos que a humanidade aprende que não é possível controlar todas as ações da natureza. 



Aprendemos, também, que não existe apenas uma possibilidade, uma forma correta de viver, e que outras comunidades vivem de outras maneiras e que também estão buscando soluções no que toca à questão do saneamento, do tratamento da água e da destinação de resíduos, sem deixar de pensar no entorno onde vivem. Este modelo foi visto na comunidade EMAÚS, por exemplo, uma ONG criada na França com o objetivo de tirar moradores de rua desta situação, e que conta com uma unidade em Ubatuba. Esta unidade conta com 25 casas além de um espaço para agricultura, de onde vem boa parte da comida consumida na comunidade. Como bem descreveu um dos nossos estudantes, “para desenvolver a agricultura o Sr. Jorge (que é um líder  comunitário), com ajuda de biólogos e moradores, criou um sistema de saneamento básico que, por sua vez, não abastece apenas o Emaús, mas sim todo o bairro. A comunidade mantém uma relação saudável com o meio ambiente, sabendo usufruir dele ao mesmo tempo que o preserva”. 


Esta e tantas outras foram ótimas percepções sobre o sentido da viagem. Conhecer coisas novas e diversas, aprender com elas. Por fim, para além deste imenso sentido pedagógico, o Estudo do Meio envereda por questões subjetivas de cada estudante. Abre novas janelas para o relacionamento com os colegas, para conhecer outros lugares e pessoas diferentes, o que os leva até a se reconhecerem de uma forma que não imaginavam ser possível. Em muitos escritos, essa descoberta sobre si mesmo, sobre os colegas e sobre a união do grupo que a viagem propiciou, também foi mencionada.

Por esses e tantos outros motivos, a viagem a Paraty, em meio à sua reconhecida importância de encontrar a História, tornou-se também um espaço para tecer memória entre os colegas que foram para o Estudo. E quantas são as lembranças que pudemos colher de lá, nos momentos de trabalho e nos momentos de lazer, no exercício de escuta pelos diversos lugares que visitamos, na forma natural como o convívio e a aprendizagem se misturam para criar um momento marcante na vida de cada um e no grupo. É que, afinal de contas, a memória nos dá sentido comum: cria sujeitos coletivos, nem individualistas nem competitivos. Nestes dias que sucederam a viagem, nós, professores, estamos vendo como isso vem se materializando nas salas de aula. 

Uma viagem de Estudo de Meio é um processo completo de aprendizagem porque deriva da experiência. Não à toa, nossos estudantes retornaram destes três dias cheios de histórias e lembranças para contar. E, dentro de toda esta vivência, vimos que a questão da preservação transcende os problemas com o desmatamento, poluição e consumo. Tem a ver conosco e sobre como nos relacionamos com os outros e com o mundo, a partir do cuidado com o bem comum. Que nossos estudantes desfrutem das próximas viagens, estas que vêm da inesgotável capacidade de aprender e de ser e estar no mundo!


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Varal poético

 Por André Judice


Os alunos da 3ª série do Ensino Médio estudaram neste primeiro trimestre o gênero poético nas aulas de Português e, em especial, a obra Claro Enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade. O trabalho de sensibilização, leitura e pesquisa foi árduo, pois se trata de uma das obras de análise mais complexa da lista do vestibular da Fuvest. O livro aborda a fase de uma poesia de cunho mais filosófico, existencial, o amor, a passagem do tempo, a lembrança do passado familiar, Minas Gerais. Vai de Dante Alighieri a Camões e por isso faz uso de forma e dicção clássicas, mas sem deixar de ser moderno. É produto de uma visão de mundo que o afasta das crises políticas pós Segunda Guerra Mundial. E para entender o que o eu lírico de Drummond tentava nos dizer, foi preciso compreender o contexto de época, outros autores, outras formas de expressão artística. 


Em Claro enigma, considerado ao lado de A rosa do povo o ápice da trajetória poética de Drummond de acordo com a crítica literária, estão reunidos alguns dos maiores poemas drummondianos, como a “A máquina do mundo", lírico-amorosa, como "Memória" ou os de temática familiar, como "Ser".

Ao conhecer Claro Enigma e as suas temáticas, às vezes percebia-se que a atmosfera da sala de aula se tornava densa, pois nos exercícios de análise poética era preciso transpor a barreira do vocabulário às constatações dos críticos, exigiam dos alunos muita reflexão. O desanuviar de cada aula se dava na prática. Confesso que me surpreendia a cada voz poética que criavam. Escreveram pensamentos, angústias, alegrias, vontades repentinas. Sabe-se lá de quem eram essas vozes que surgiam em suas obras! O que importa aqui é o reconhecimento por parte deles de um gênero literário e uma atitude do fazer poético. 


O registro e o modo de expor alguns dos poemas que o alunos realizaram foi inspirado nos varais da Literatura de Cordel, nome que tem origem na forma como tradicionalmente os folhetos eram expostos para venda, pendurados em cordas, cordéis ou barbantes em Portugal, e a qual o Nordeste do Brasil herdou.



Desse modo, convidamos os nossos amigos do Colégio Hugo Sarmento a conhecer e a participar desse trabalho. É muito fácil, basta pendurar o seu poema no nosso varal. 

Fontes de pesquisa: 

Camilo, Vagner. Drummond – Da Rosa do Povo à Rosa das Trevas.  São Paulo: Ateliê Editorial, 2005 (1ª edição: 2001). 

CARLOS Drummond de Andrade. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12894/carlos-drummond-de-andrade>. Acesso em: 12 de Mai. 2018. Verbete da Enciclopédia.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A relação da Geografia com o projeto e o Estudo de Campo na escola

Por Judith Nuria Maida 


“A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim, em ter novos olhos.”
Marcel Proust

Este ano, o tema do projeto na escola é “Problemas Ambientais Globais”.  

É o trabalho através do projeto que nos permite articular os conhecimentos específicos dos componentes curriculares em torno de um eixo norteador comum e, portanto, funciona como referência para a integração dos saberes, o que proporciona a “costura” das diversas áreas. 

No caso específico da Geografia, o tema “Problemas Ambientais Globais” contempla um objetivo maior, que é compreender a formação e processos transformadores da paisagem e do espaço geográfico como consequências da ação antrópica sobre o planeta. Nesse sentido, a questão ambiental está diretamente relacionada aos conteúdos que trabalhamos em nossas aulas, uma vez que diz respeito ao modo pelo qual a humanidade busca produzir bens para melhorar suas condições de vida, o que provoca grandes alterações nos sistemas naturais  principalmente solo, relevo, clima, hidrografia e vegetação  que são conteúdos amplamente trabalhados desde o 6º ano, em nossa escola.

O debate sobre o meio ambiente está, cada vez mais, presente na pauta da agenda mundial. Para o enfrentamento dos problemas ambientais  poluição do ar e das águas, contaminação dos solos, erosão, desmatamentos, produção de lixo, efeito estufa, entre outros  e suas consequências, é necessária uma visão ampla da realidade que envolve vincular três esferas do desenvolvimento sustentável: desenvolvimento humano, crescimento econômico e a preservação ambiental.  

Dessa forma, trata-se de um assunto que requer interface com praticamente todos os campos do conhecimento e, por este motivo, abordar os “Problemas Ambientais Globais” conversa diretamente com a concepção metodológica da escola, onde procuramos promover a interdisciplinaridade e a troca de saberes entre educadores e educandos sob uma perspectiva integradora e reflexiva sobre a realidade.

Dentro da pedagogia de projetos, acreditamos que as estratégias de ensino-aprendizagem mais potentes são aquelas em que o aluno se vê implicado naquilo que estuda, como agente transformador, deixando de lado uma posição passiva frente ao conhecimento e tornando-se protagonista. É nessa perspectiva que se insere o estudo de campo que realizaremos nos dias 18, 19 e 20 de maio.  Por meio dessa viagem, os alunos poderão vivenciar e experimentar situações reais que objetivem suas hipóteses sobre diversos fenômenos naturais e sociais.

Portanto, a viagem de estudo de campo é, para nós, um momento muito importante na prática pedagógica, pois representa uma oportunidade para enriquecer o conhecimento e colocar em prática aquilo que é trabalhado diariamente em sala de aula.

Especificamente, o estudo de campo tem como objetivo permitir ao/à estudante a experimentação na produção do conhecimento, o que significa tornar-se mais habituado ao processo de analisar a realidade que o cerca, problematizar suas questões, buscar embasamento para desenvolver seu trabalho, coletar dados para afirmar ou refutar suas hipóteses, bem como a produção e a divulgação do conhecimento científico e suas articulações com a sociedade. Em última análise, importa-nos que o aluno se perceba como um agente crítico perante as questões relacionadas à ciência e ao seu uso e que desenvolva maior autonomia para percorrer seu caminho como estudante.

Para tanto, é necessário instrumentalizar os alunos com procedimentos e métodos nas diversas áreas do conhecimento  daí o seu caráter interdisciplinar  que permitirão a eles estabelecer critérios para tomada de decisões, a fim de desenvolver sua autonomia intelectual. 

Nas aulas de Geografia, esses procedimentos vêm sendo desenvolvidos por meio de leituras complementares, discussões realizadas em aulas, análises de situações-problema, levantamento de dados, leitura e produção de mapas, gráficos e tabelas, dentre outras possibilidades.


A escolha do local para realização do estudo de campo buscou oferecer oportunidades enriquecedoras de vivência daquilo que é discutido em teoria, possibilitando análises o mais próximas possível da realidade, quando muitos dos procedimentos desenvolvidos na problematização, produção e o uso daquilo que estudamos serão desenvolvidos na prática.

Por conta do tema do projeto, o local escolhido para o estudo de campo desse ano, é a região do Lagamar, composta por uma diversidade de ecossistemas litorâneos do Vale do Ribeira: Iguape, Cananeia, Ilha do Cardoso e Ilha Comprida. Consideramos ser de suma importância que os alunos conheçam uma região rica em diversidade de ambientes naturais, onde possam relacionar a dinâmica social, política e econômica com os impactos ambientais que ameaçam esse patrimônio natural.  Dessa forma, o estudo do campo serve de laboratório para o tema central do projeto.


Preservação Ambiental, Biodiversidade, Patrimônio Histórico e Cultural, Unidades de Conservação e comunidades locais são alguns dos assuntos que trataremos na Ilha do Cardoso, através do contato direto com a natureza, população local, participando de manifestações culturais, identificando questões ambientais, entrevistando comunidades locais, discutindo titulação de terras e a importância da preservação dos diversos ambientes litorâneos.

Em Iguape teremos ainda atividades no Morro do Espia, Valo Grande e no centro histórico. Em Cananeia as atividades serão na comunidade Quilombola Mandira, onde mais de 25 famílias trabalham com o manejo de ostra.

Estruturar o estudo de campo dialogando diretamente com o projeto interdisciplinar da escola requer muitos estudos do grupo de professores e uma dinâmica que permita encantar e envolver os alunos para uma reflexão sobre a questão central. 

Acreditamos que esse momento de imersão em realidades distintas, somado aos outros desenvolvidos em ambiente escolar, leve os alunos a refletir com propriedade e responsabilidade sobre as relações do Homem com a Sociedade e do Homem com o meio que o cerca e propor soluções para enfrentar os problemas ambientais globais.

Boa viagem e bons trabalhos!

sexta-feira, 4 de maio de 2018

“Além da minha rua” - literatura africana no ensino fundamental

Por Gabriela Duarte


Estudar os povos africanos, suas culturas, as línguas e toda a herança recebida pelos brasileiros passou a ser conteúdo interdisciplinar nos cursos de História Geral e do Brasil, e, desde 2003, são objeto de estudos também em Língua Portuguesa, Artes e, porque não, em todas as demais disciplinas curriculares da Educação Básica (Lei nº 10.639/2003).

É sempre muito interessante quando trazemos aos alunos essa diversidade de culturas. Aqui no nosso Colégio, sempre procuramos o que há de melhor dos contos de todos os tempos e lugares. No 4º ano, por exemplo, os alunos estudam sobre a África lendo histórias de autores nigerianos, angolanos, entre outros, travando contatos profundos com os povos africanos nas rodas de biblioteca.


África não é mesmo um país, como muitos pensam, e nossos alunos estão por dentro desses conhecimentos. Mesmo assim, quando iniciamos o projeto de leitura no 7º ano, nossos estudantes expuseram várias questões: Como é Angola? Em que lugar da África fica? Vamos ler um livro angolano? Quantas palavras estranhas, como vou entender isso aqui?


A leitura dos contos do livro “Os da minha rua” conseguiu não somente responder a elas, como também trazer outras curiosidades que foram além: “Não significa que eles moram em florestas, agora sei que Angola tem prédios e casas comuns”. Houve ainda outra ponderação belíssima, em que uma aluna disse: “Eu amei o livro, ele abriu meus olhos sobre a África, eu imaginava uma coisa totalmente diferente, pensava numa coisa deserta, um país realmente pobre... depois de ler ‘Os da minha rua’ percebi que era uma grande cidade, com ‘tevês’ coloridas e já imaginava que as pessoas tivessem amigos, mas não tantos como o narrador”. Os comentários revelam a diversidade do continente africano e reafirmam a importância de se estudar sua cultura riquíssima.

As produções textuais sobre o livro emocionaram a todos os que as leram, dentro e fora da escola, pois sempre estudamos o autor angolano Ondjaki, mas, particularmente, ainda não havíamos presenciado tanta sensibilidade para compreender e resenhar uma obra, como o trabalho que foi feito pelos alunos do 7º ano.

Para compartilhar estes encantamentos, criamos um painel, colocado no corredor da escola. O convite está feito a todos que desejarem conhecer o painel “Além da minha rua”, nome dado por nossa querida professora Tânia, que nos possibilitou construir o mural de esboços, retratos, textos de uma visão de Angola, antes e depois de os alunos lerem o livro.


“Ndalu não é extraordinário, ele não mudou o mundo, mas Ondjaki descreve aquelas cenas e você se sente na pele de Ndalu, e o texto retrata coisas que já aconteceram ou vão acontecer com qualquer um”. Após essa magnífica descrição de um aluno, que tal conhecer essa obra? Temos outras obras deste autor na nossa biblioteca. Que tal visitar o Colégio e prestigiar o painel criado pelo sétimo ano? Venha camarada, é bué lindo!

SOBRE O AUTOR DO LIVRO: Romancista, contista e poeta, às vezes. Ondjaki nasceu em Luanda – Angola, quando seu país recém-independente passava por profundas transformações. É nesse cenário que o autor vai construindo suas obras, trazendo ao leitor “o que é Angola”!


Atualmente mora no Brasil, a maior parte do tempo no Rio de Janeiro... Apreciador de nossas obras e de nossa cultura!
Seus livros foram traduzidos para muitas línguas e o público infanto-juvenil tem um carinho especial por estas obras, as quais trazem reflexões críticas, políticas, líricas de modo jovem e acessível.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O RPG e o lúdico nas aulas de História


Por Thiago Oliveira

Não é de hoje que as escolas contemporâneas perceberam um certo descompasso entre o interesse do aluno e o que a escola oferece. Não é raro encontrar professores dizendo que antigamente os alunos eram mais interessados, liam mais, escreviam mais, etc. O mundo mudou e, com ele, nossos alunos. Eles não leem mais ou menos, escrevem mais ou menos, mas leem e se expressam de formas diferentes das que professores estão acostumados. Esse descompasso tem vários motivos e as escolas tentam suplantá-lo de várias maneiras. A aula expositiva parece  não mais fazer mais tanto sentido, e se procura diversas opções, muitas vezes pautadas na tecnologia. Fica claro que não há uma escolha correta universalmente, e a escola deve primar justamente pela diversidade de soluções. 

Esse descompasso também tem origem fora da escola. Diariamente, os alunos são bombardeados por informações e imagens de consumo instantâneo, enquanto o método de ensino exige uma atenção contínua que excede em duração e profundidade os estímulos com os quais eles estão habituados a se relacionar. Contribuindo para esse descompasso, os processos de avaliação acabam por protagonizar a vida escolar, ofuscando as demais atividades que integram a educação. A busca pelo conhecimento acaba, assim, por ser deixada de lado a partir do momento em que a maior preocupação de alunos e professores se destina à preparação das e para as provas. Nesse sentido, o lúdico tem um lugar essencial.

De acordo com Huizinga, o lúdico é pré-cultural, ou seja, não foi inventado pelo homem. Os bebês brincam antes de aprender qualquer tipo de linguagem, assim como os animais. Brincar é essencial e nossos colegas do Fundamental I sabem disso muito bem, porém, ao avançar os ciclos, parece-me que esquecemos disso. O jogo, processo mais complexo que a brincadeira, é fundamental no processo de ensino-aprendizagem contemporâneo. Com regras e objetivos claros é um aliado poderoso do professor. Ora, o RPG surge como uma alternativa viável dentro do panorama pedagógico a partir do momento em que possibilita que se trabalhe conteúdos escolares de forma multidisciplinar, de modo envolvente e divertido.

Mas, afinal, o que é o RPG? Em inglês, esta sigla significa Role-Playing Game, algo que podemos traduzir como Jogo de Interpretação de Papéis. Neste jogo, a imaginação é o tabuleiro e os personagens são as peças. O jogo acontece pela interação entre jogadores e narrador, em um sistema de estímulo-resposta no qual os personagens e o cenário se relacionam com o conhecimento. O cenário é criado pelo narrador, podendo ser inspirado no mundo real, já os personagens são desenvolvidos sob sua orientação. O grupo, então, tece coletivamente uma história. Neste contexto, “vencer” ou “perder” são conceitos suplantados pelo trabalho em grupo.

Iniciamos nesse semestre, com os alunos do 6º e do 7º anos, uma aventura de RPG; estão agora criando personagens e decidirão todas as ações e falas desses personagens em uma história narrada pelo professor. Os alunos do 6º ano deverão procurar uma ruína entre os rios Tigres e Eufrates e, somente se tiverem sucesso, conseguirão salvar a sua cidade do jugo implacável e tirânico de uma cidade maior, que deseja cobrar pesados impostos de seus camponeses. Os alunos do 7º ano investigarão um assassinato na região mineradora do Brasil colonial durante o século XVIII e descobrirão que o crime é muito mais complexo do que parece.


Vivendo essas histórias, os alunos conseguem compreender muito melhor a dimensão humana da história, conseguem vivenciar mais vividamente as relações de poder, trabalho e entre as classes sociais. Entendem melhor que os agentes históricos têm recursos limitados e as escolhas não podem ser completamente racionais, afinal, na equação da vida, as variáveis são muitas.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Clube de Leitores do Hugo: É um mistério!

 Por Conrad Pichler 


Na primeira e excepcional reunião do Clube de Leitores do Hugo, os alunos receberam uma missão: escolher nossa primeira leitura. Nem sempre é fácil escolher uma leitura, há tantas opções, há tantas possibilidades, há infinitas combinações: os melhores autores, os melhores temas, os melhores gêneros... quando se chega a esse impasse, não tem erro: deve-se explorar tudo com a maior atenção, colocar os títulos sobre a mesa, tentar achar algo que todos queiram ler e algo que ninguém leu. Esse novo título deve ser do interesse de todos, mas é possível se divertir junto com as pessoas à nossa volta, lendo, apesar do título não interessar logo de cara. 

Neste primeiro momento, além da curiosidade dos “clubeiros”, explorando os seus próprios repertórios a partir do acervo da biblioteca do colégio, contamos também com um desejo comum: ler um clássico. (Ah! Um clássico é aquela obra já conhecida de muita gente, costumeiramente usada como referência em outras obras e a qual todos os leitores mais experientes dizem ter se perdido durante horas a fio de leitura ininterrupta). Claro que cada gênero literário tem seu clássico: os contos fantásticos de Edgar Alan Poe são clássicos do terror, as aventuras imaginativas de Júlio Verne são clássicos da ficção científica. Nas histórias de mistério e suspense detetivesco, apenas uma pessoa supera os clássicos sherlockianos de Arthur Conan Doyle: Agatha Christie.


Assim, tomados de um espírito inquieto, pegamos nossos tíquetes em forma de livro, avançamos sobre a plataforma extensa das mesas da biblioteca, nos aconchegamos ao lado dos outros passageiros-leitores e nos dedicaremos, durante 12 semanas, na leitura de “O assassinato no Expresso do Oriente”. Esperamos auxiliar, da melhor forma possível, o detetive Poirot em sua investigação, uma vez que somos testemunhas oculares de um dos mais célebres – e clássico – mistério da literatura.


O Clube de Leitura do Hugo é oferecido às quintas-feiras para alunos do 6º ao 9º anos. É possível entrar nesse trem nas próximas paradas, basta ter o tíquete na mão, isto é, o livro.


quinta-feira, 22 de março de 2018

Dia Mundial da água no currículo da formação para a cidadania

Por Rosana Maria Dell’Agnolo



A educação tem seus ritos para elaborar o projeto pedagógico que  alimenta movimentos eficientes em busca da aprendizagem significativa. Transformar assuntos da atualidade em contextos sólidos de discussão na sala de aula promove maior engajamento de professores e alunos na necessidade do aprender para utilizar na vida.

Este ano, nas aulas de Ciências do 9º ano do Fundamental II, na nossa escola, iniciamos a discussão sobre a capacidade de o homem respeitar o planeta na busca de alimentação sustentável. Como não poderia deixar de ser, a água torna-se protagonista no manejo da produção alimentar sustentável.  Nasce, então, ampla e profunda discussão sobre a presença de água de qualidade para uso da humanidade. 

Jornais, telejornais e debates midiáticos apresentam cotidianamente as ações que os nossos governantes estão gerindo diante dos acordos presentes no 8º Fórum Mundial da Água que está acontecendo em Brasília. Desde 1992 o Brasil protagoniza as discussões ambientais. Sentimos, então, como professores e gestores, que esse dia mundial de tributo à água deveria ser momento de reflexão para nossos alunos.

As escolas e instituições culturais estão engajadas nesse dilema de fazer com que os alunos sintam o pertencimento ao planeta Terra, e de alguma forma criem ações de comemorações,  debates e presença participativa nas petições públicas.

Dialogando com os alunos, decidimos seguir o que a maioria das escolas do mundo, e principalmente do Brasil, escolheram para este momento. Vamos cantar a música Planeta Água, de Guilherme Arantes, escolhida como “hino” desta representação e vivenciaremos as comunicações de Severn Suzuki, uma ativista que convoca os jovens do mundo inteiro para se engajarem nas questões ambientais.  Em 1992 ela era apenas uma criança de 12 anos que silenciou o mundo, na ECO 92 , retratando como os estudantes se sentem diante dos problemas ambientais. 

Assista : A garota que calou o mundo 

Nosso compromisso, este ano, é aprofundar os estudos sobre o meio ambiente em todas as disciplinas. Com ferramentas pedagógicas e modalidades didáticas diferenciadas, nosso projeto de escola que transforma o modo de pensar, constrói cidadãos críticos e colaborativos, hoje comemora o “líquido da vida”, cantando, refletindo, construindo ideias para um futuro onde a água esteja disponível para a saúde do nosso Planeta.


O que você fez de concreto para mudar hábitos de desperdício de água?

A Humanidade de hoje deve ser  composta por “sentinelas" da vida no planeta, pois só assim o homem do futuro existirá.

Para participar das discussões políticas sobre o uso da água, entre em:

quarta-feira, 14 de março de 2018

Aulas de Atualidades e Política : A leitura de jornal e o gosto pela informação

Por Maíra Costa

A fim de encorajar nossos alunos a se manterem informados e críticos acerca do mundo que os cerca, iniciamos nossos trabalhos em 2018 com a leitura de jornais. Nos meses de fevereiro e março, trouxemos à sala de aula debates da atualidade por meio do compartilhamento de artigos jornalísticos. A princípio, utilizamos o jornal Joca, especializado no público infanto juvenil, e depois partimos para a leitura de artigos dos principais jornais paulistas, Folha de São Paulo e Estadão. Os primeiros temas de discussão tratados foram as fake news, a febre amarela, os muros de Trump, as espécies na Amazônia, o salário mínimo, o uso de celular por jovens e seu impacto na saúde, a intervenção militar no Rio de Janeiro, entre outros. 

As atividades têm ainda o intuito de desenvolver a habilidade de levantar boas questões sobre o que lemos e ouvimos e de oportunizar o aprofundamento sobre os temas tratados, pela busca de informações em muitas fontes. A ideia é que o aluno se mantenha atualizado, ativo e participante. 

Nossos alunos encararam a tarefa de forma muito positiva, trabalhando com seriedade e empenho a fim de extrair dos artigos o que de mais relevante encontravam para transmitir aos colegas. Durante as apresentações, os ouvintes também não eram passivos, já que deveriam formular, em seus cadernos, perguntas sobre o que ouviam. Ao final de cada rodada de exposições, as perguntas anotadas em segredo eram compartilhadas com os expositores, a fim de que esses selecionassem a mais adequada para sua pesquisa de aprofundamento. 

 

A pesquisa realizada em casa teria como finalidade não apenas o aumento de repertório por parte do aluno pesquisador, mas também a comunicação dos resultados de sua pesquisa aos colegas. E, sendo a comunicação a função primária, não apenas da linguagem jornalística, mas de qualquer linguagem, o texto produzido com o intuito de responder aos colegas daria sentido à sua escrita, já que possui interlocutores reais.
  
Esse trabalho vem ao encontro de uma das principais demandas da atualidade, a saber, a habilidade de buscar o conhecimento de forma criteriosa. Tendo em vista a profusão das fake news, tornou-se necessária a discussão acerca das fontes de informação. Por isso, foi tema de nossos encontros a confiabilidade das fontes. Analisamos quais indícios deveriam nos levar a desconfiar de uma dada informação e quais características estariam presentes nos bons textos jornalísticos. Analisamos também como a informação não é isenta. Mesmo quando um texto se propõe meramente informativo, a escolha das palavras e temas deve ser observada com cautela. 

A partir da segunda metade de março até o final de abril, trabalharemos as pré-candidaturas e candidaturas à presidência do Brasil. Iremos acompanhar os presidenciáveis, documentando seu passado e seus movimentos presentes por meio de um dossiê. Cada aluno (ou dupla) ficará responsável por informar sua turma a respeito daqueles que irão liderar a cena política a partir de 2019. Nosso objetivo é, novamente, incentivar a pesquisa autônoma a respeito de temas que nos influenciam direta ou indiretamente, mantendo vivo o gosto pela informação precisa, que nos possibilita a tomada consciente de posição. 

 

 


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O compromisso entre a escola e as famílias

Por Theodora M. Mendes de Almeida – diretora pedagógica

Desde a primeira visita das famílias, nos esforçamos para esclarecer ao máximo a proposta pedagógica e a metodologia de ensino da escola. Contamos aos pais novos sobre como desenvolvemos nosso trabalho e quais são os nossos valores, para que avaliem bem a sua escolha. Neste encontro, procuramos conhecer também o processo de aprendizagem destes alunos até o momento em que nos procuram.

Para os pais que já estão conosco há mais tempo, sabemos que é necessário atualizar as informações. Para nós, é importante deixar claro o que esperamos desta parceria e, assim, informamos de diversas maneiras como podem acompanhar o desenvolvimento de seus filhos, a cada nova fase. A escola e os pais precisam estar preparados para lidar com as questões que certamente irão surgir, enfrentando-as com naturalidade e respeito.

No planejamento de cada novo ano, reunimos a equipe pedagógica, fazemos a escolha dos projetos e elaboramos as justificativas para cada faixa etária, preparamos o calendário anual, planejamos as saídas pedagógicas, adequamos os materiais solicitados ao longo do ano, pensamos nas lições que serão enviadas para casa, que uso faremos das ferramentas tecnológicas e muito mais. Tudo isto é discutido pela equipe e compartilhado com as famílias ao longo do ano: nas circulares por e-mail, atualização do site, fotos e legendas no Facebook, textos mais longos e detalhados no blog, entrevistas, relatórios e reunião de pais.

 A reunião de pais é, sem dúvida, momento importante para esta troca. Para que o encontro se torne mais proveitoso, é interessante que os pais tragam questões que poderão ser abordadas naquele momento, beneficiando a todos. Além dos temas relacionados ao ensino e à aprendizagem, quando percebemos a dificuldade das famílias para lidarem com certos temas típicos da idade, aproveitamos as reuniões de pais para promover palestras esclarecedoras. Com isso, a presença nesses, e em todos os eventos, se torna ainda mais imprescindível. Quando se tem conhecimento, é possível participar de forma mais eficiente.

O que queremos enfatizar aqui é que a relação deve ser sempre de parceria e de cumplicidade, lembrando que a formação em casa complementa a da escola e vice-versa. É função dos pais ajudar na construção do papel de estudante, estimulando seu filho/a a gostar da escola, mostrando a importância de cumprir seus compromissos, entre tantas outras coisas.

Compreender o Projeto Pedagógico de modo amplo e participar de tudo o que a escola propõe é muito importante para aproximar família e escola e garantir o aproveitamento dos alunos. Temos que nos respeitar e apoiar mutuamente.

Que seja um ano enriquecedor para todos nós!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A Música nos projetos trimestrais: preparando apresentações finais

Professor Paulo José Afonso Caldas

Preparar uma apresentação é mergulhar profundamente naquele material que se quer mostrar, é se tornar mais íntimo daquela música, daquele instrumento que vamos usar, de forma a conhecer detalhadamente o que vamos fazer. 

No Grupo 5, ao entrarmos no projeto “Animais dos Polos”, abordamos canções que fazem referência a alguns desses animais: “O Pinguim”, “A Foca” – (ambas da Arca de Noé, de Vinicius de Moraes), e “Urso polar” e “Foca”, musicadas pelo professor a partir de poemas do livro “Oba! Que frio”, de Lalau e Laura Beatriz. 


E não foram só com canções que abordamos o assunto. Fez parte da nossa prática neste trimestre um divertido exercício de movimento, interpretando alguns animais dos polos, ao som de exemplos da música orquestral de Camille Saint-Saëns (O Carnaval dos Animais) e Tchaikovsky (Suite Quebra-Nozes). Assim, a lebre, a coruja do ártico, a baleia, o urso, o pinguim e a foca tiveram seus movimentos interpretados pelos alunos, em interação com a música, que sempre trazia inspirações interessantes para a performance. Nesse exercício, o importante não é o ritmo ou a entoação, mas o que aquela música me inspira a expressar corporalmente quando eu finjo ser um bicho ou outro. Os resultados vão para além do divertido, gerando momentos de expressão muito interessantes.

Nossa prática, cantando e tocando os instrumentos, nos renderam resultados mais palpáveis. A entoação começa a ficar mais precisa, conseguimos agora entender um pouco mais quando cantamos a letra de forma mais falada ou quando entoamos as palavras em concordância uns com os outros. No final do trimestre até surgiu a ideia, por parte deles, de cantarem sozinhos, um de cada vez, enquanto os demais acompanhavam com os instrumentos.

A pulsação, ao acompanhar as canções com os instrumentos, ficou mais firme e, ao mesmo tempo, o som dos instrumentos mais equilibrado com o som da voz. 

No 1º ano ensaiamos uma canção referente ao projeto “Universo” que se chama “Para baixo ou para cima?”, da série de animação “O Show da Luna”, que fala do fenômeno da gravidade.  Alguns já conheciam, os demais aprenderam a letra, colocamos a canção num tom apropriado para os alunos cantarem, e todos cantaram lindamente. Ainda ensaiamos um rap feito pelas professoras que faz referência aos planetas do nosso Sistema Solar. A letra é mais longa, mas eles deram conta de decorar e cantaram com animação. 


No 3º ano, ao entrarmos no projeto “Grécia Antiga”, estudamos a canção “Os 12 trabalhos de Hércules”, de Zé Ramalho. A canção deixou a turma empolgada, pois já haviam ouvido falar do herói, ou lido a respeito dos 12 trabalhos realizados por ele. Gostaram ao ponto de decorarem a letra toda, cheia de referências, em pouquíssimo tempo. E a melodia desta tem muitos detalhes e uma extensão de notas incomum ao repertório estudado até então. Contudo, a canção não nos permite fazer grandes peripécias com o acompanhamento, que teve que ser bem simples. Isso permitiu que a turma pudesse cantar e tocar ao mesmo tempo, com mais tranquilidade.


No 4º ano, mergulhamos na música medieval, contribuindo para o projeto “Idade Média”.  Nas aulas, assistimos a vídeos que mostravam instrumentos musicais medievais. Fizemos relações de parentesco desses instrumentos com os instrumentos modernos que conhecemos. Assistimos, também, a vídeos de grupos tocando música medieval e grupos dançando.  

Em seguida, abordamos uma “cantiga de amigo” galaico-portuguesa do século XIII, contida em um dos poucos manuscritos galaico-portugueses que contém, além da letra, a parte musical registrada, e que é atribuída ao trovador galego Martim Codax: “Mandad’hei comigo”. Tivemos que ler uma tradução para compreendermos bem o que a letra dizia. E treinamos, sempre lendo a letra, usando um sotaque aportuguesado. 

A partir do momento em que a canção foi melhor apropriada pelos alunos, começamos a montar o arranjo de acompanhamento. Assim, tocamos a melodia com flautas, elaboramos a parte rítmica com percussões e violão. Cada um escolheu o que quis tocar. Alguns até optaram por só cantar. Outros engajaram-se em tocar o violão, que no caso usa um único acorde, fácil de ser tocado. A parte da flauta foi bem desafiadora, e exigiu das alunas que estudassem a música em casa também, o que deu um ótimo resultado.

Além da canção, estudamos também uma dança francesa chamada “Branle Pinagay”, que é dançada com um único passo básico, mas que permite diversas formações com o grupo: Dançar em roda, em fileiras, com cruzamentos, e por aí vai. Ao aprender o passo básico, fizemos nossa própria versão da dança e pusemo-nos a ensaiá-la. Tudo isso deu um baita trabalho à turma, que se saiu bastante bem na empreitada. E o repertório foi bem aceito. Gostaram de cantar, de tocar e de dançar.  

Esse estudo foi muito importante e dará bases para que os alunos compreendam um pouco mais das origens das músicas que compõem a nossa cultura musical. 


Nesse trimestre no 5º ano, que encerra nosso curso de música do Fund I, tivemos um desafio especial: cantar uma canção polifônica. Contribuindo para o projeto “Renascimento”, abordamos uma canção a três vozes, portuguesa, do século XVI, chamada “Na fomte está Lianor” (assim como está escrito no manuscrito). A letra descreve momentos em que Lianor sofre a ausência de seu amado. A letra também traz amostras de como se escrevia em português na época. Os alunos puderam observar uma foto do manuscrito e reparar em curiosidades da escrita, como, por exemplo, “olhando”, no manuscrito se vê “olhãdo”; e “fonte”, no manuscrito se vê “fomte”.

No arranjo das vozes dividimos o grupo em dois: um para a voz mais aguda e outro para a voz do meio. Eu acabei ficando com a voz mais grave. Os alunos não demoraram a aprender suas vozes. Porém, o grande desafio era cantar uma melodia enquanto se ouve outras duas. Ensaiamos muito, a princípio só com duas vozes. E, na medida em que ficaram mais seguros, comecei a colocar a terceira voz. Foram momentos muito especiais, pois eles gostaram da canção e do efeito da junção das vozes. E um fato me deixou muito feliz. Não só a mim, na verdade, mas à turma toda: Derik e Edu, que nunca se propunham a cantar na aula (só gostavam de tocar), começaram a cantar com os colegas – uma grande vitória dessa turma que é unida, companheira.  

Para não ficarmos só nas vozes, nesse momento revimos atividades antigas para mexer o corpo, explorar instrumentos e improvisarmos em grupo: “Siga o som” (reagindo com movimentos corporais a diferentes paramentos do som) e o “jogo de sobreposição de ritmos” (no qual os alunos combinam ritmos diferentes num processo de improvisação coletiva).

Por fim, ainda estudamos uma dança instrumental (termo que denomina uma música para dançar) francesa chamada “Branle de la torche”, com melodias tocadas na flauta e acompanhamento de percussões. A melodia da flauta é mais desafiadora e os alunos que optaram por tocá-la precisaram treinar em casa, o que permitiu a eles darem esse passo à frente no instrumento. 

Dessa forma, conseguimos um bom contato com esses dois gêneros de época, proporcionando uma vivência bacana na musica renascentista europeia (música que também influenciou nossa cultura).


Treinamos, acertamos, erramos, encontramos soluções, nos comunicamos para fazermos juntos. E aí, quando tudo está pronto, e chega a hora, acaba ficando para alguns (me incluo, é claro) aquele nervozinho que sentimos antes de nos apresentarmos. Isso acontece, pois sabemos de tudo o que pode dar certo e errado, e cada detalhe imperceptível para a plateia é gigante para nós, que estamos apresentando. 

Esse momento mágico faz parte da prática musical e coroa todo o nosso esforço e trabalho do ano.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Capoeira: Educação e cultura por meio da arte, dança, jogo e luta

Por Diego Zaccardo Ventura

Contexto histórico

A capoeira surgiu no Brasil por volta do século XVII, quando o país ainda era colônia de Portugal, com a chegada dos negros que foram trazidos da África para trabalharem como escravos nas fazendas produtoras de açúcar (engenhos).

Grande parte desse escravos vinham da região de Angola, cujos nativos já praticavam muitas danças ao som de suas músicas.

Ao chegarem no Brasil, eles foram proibidos de praticar qualquer tipo de luta e viram na capoeira a chance de disfarçarem sua luta por meio do ritmo e dos movimentos de suas danças africanas. Além de essa ser uma forma de manter a sua cultura e aliviar o estresse do trabalho pesado a que eram submetidos, os escravos viram na capoeira uma forma de proteção contra a violência e repressão que sofriam pelos capitães do mato e os donos das fazendas.

A capoeira nas escolas

Mesmo após a abolição da escravatura no Brasil, a capoeira não era vista com bons olhos e a sua prática era proibida. Somente ao final do ano de 1972, após muitos esforços, a capoeira foi vinculada ao Comitê Olímpico Brasileiro e firmou-se como uma prática esportiva presente em escolas, clubes e academias.

Falando mais especificamente do universo infantil, por meio da capoeira as crianças se divertem, ganham saúde e manifestam seu lado esportivo.

Além do corpo, a capoeira ajuda as crianças a exercitar a mente, trabalhando suas habilidades físicas (resistência, flexibilidade, equilíbrio, coordenação, reflexo e capacidade cardiorrespiratória) e psicológicas (criatividade, atenção, autoconfiança, respeito, disciplina, autossuperação e autocontrole). 

Outro aspecto positivo da capoeira é que as crianças passam a ser mais disciplinadas, mais cooperativas e têm maior facilidade de integração em grupos sociais e maior senso de sociedade.

A capoeira no Colégio Hugo Sarmento

No início de 2017, recomeçamos as aulas com os alunos do Fundamental I e as atividades abordam todos os aspectos da capoeira:

  • Arte: a capoeira é considerada uma arte em razão de seu peso cultural e histórico.
  • Dança: na capoeira a musicalidade é muito explorada e todos os movimentos são realizados através da ginga e floreio, que assim como uma dança é um movimento coordenado e rítmico.
  • Jogo: o jogo da capoeira é praticado em duplas, em que cada praticante demonstra seu conhecimento e desenvolvimento sobre a atividade.
  • Luta: embora o jogo da capoeira não tenha como objetivo eleger um campeão, seus movimentos e golpes permitem habilidade e técnicas de defesa pessoal.

Para embalar o ritmo da roda da capoeira, em que os alunos jogam, nas aulas eles também aprendem toda a base da musicalidade e o toque dos instrumentos que são utilizados pelos capoeiristas na chamada “bateria”, como: berimbau, pandeiro, agogô, reco-reco e atabaque.

Principais atividades: golpes e movimentos acrobáticos aprendidos durante o ano, toque de instrumentos e materiais utilizados:

  • Golpes frontais: martelo, ponteira, bênção, chapa de frente, queixada de frente, meia lua de frente, entre outros.
  • Golpes giratórios: armada, meia lua de compasso, meia lua solta, parafuso, etc.
  • Técnicas e materiais utilizados: para aprender esses golpes, os alunos realizam os chutes por cima de cones, em aparadores ou tentando alcançar garrafas PET penduradas em uma corda.
  • Movimentos acrobáticos: au (popularmente conhecido como “estrelinha”), macaquinho, parada de cabeça, parada de dois apoios (bananeira), etc.
  • Técnicas e materiais utilizados: tatames, cordas, bola de Pilates e steps de madeira.
  • Toque de instrumentos e canto das músicas: os alunos, ao longo do ano, aprenderem a tocar berimbau, pandeiro, atabaque, agogô e reco-reco, incluindo algumas variedades de canto e toques que fazem parte da capoeira.

Galeria de fotos

Durante aula de movimentos acrobáticos, aluno realiza o movimento au (estrelinha) com o apoio de apenas uma das mãos.

Durante o 2º semestre, os alunos aprenderam e treinaram também o maculelê, que é uma dança guerreira que utiliza bastões e faz parte da cultura brasileira.

Durante a aula, aluno realiza o golpe au (estrelinha) com o apoio das duas mãos.

Em aula de movimentos acrobáticos, aluno realiza o movimento parada de 2 apoios (bananeira).

Roda de capoeira entre os alunos com canto e toque de instrumentos (berimbau, pandeiro e atabaque) na bateria.

Aluno realiza o movimento acrobático au batido, também conhecido como beija-flor.

Eventos

Batizado de Capoeira
O batizado é um dia de festa em que os novos capoeiristas participam pela primeira vez do jogo na roda de capoeira com professores, mestres e contra-mestres. São realizados batizados na entrega da 1ª corda ou para troca de cordões, conforme o aluno evolui na modalidade e amplia as suas habilidades, tanto para a realização de movimentos de maior dificuldade, no espírito cooperador do capoeirista e no aprendizado de cantos e toques de instrumentos e ritmos. 

É um momento especial em que o aluno batizado escolhe o seu padrinho, que é convidado a amarrar a sua corda ou o seu cordão, gerando consigo uma eterna lembrança daquele momento especial.

No final do 1º semestre de 2017, no dia 30 de junho, foi realizado o batizado de capoeira no Colégio Hugo Sarmento, em que os alunos ganharam sua 1ª corda de capoeira e puderam mostrar aos seus familiares e amigos um pouco das suas habilidades adquiridas com a modalidade.

Eventos Interescolares

Também neste ano, os alunos do Colégio Hugo Sarmento foram convidados a participar do Festival Intercolegial de Capoeira do Colégio Santa Cruz, realizado em 2 de setembro. Neste evento, eles tiveram a oportunidade de interagir com as crianças do colégio anfitrião e de outros colégios convidados. Nesse evento, os alunos participaram de 3 oficinas de capoeira e, ao final, receberam uma medalha.


Fontes
- Site Portal e Educação: https://www.portaleducacao.com.br/
- Revista Universo Capoeira: nº 5 – Ano 1 – outubro/novembro 1999