quarta-feira, 5 de abril de 2017

Todos somos inteligentes

por João Mendes de Almeida Jr

Quem nunca ouviu falar de QI (Coeficiente de Inteligência), testes que classificavam as pessoas de acordo com seu desempenho em questões lógico-matemáticas, motivo de comparações e de orgulho ou de vergonha para quem se submetia a eles.

A partir da década de 1980, entretanto, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Harvard, liderados pelo neurocientista Howard Gardner, desenvolveu uma teoria segundo a qual na verdade todos nós possuímos diferentes inteligências. Inteligências Múltiplas que se inter-relacionam entre si e apontam e propiciam nosso sucesso na resolução, envolvimento e desempenho em problemas e tarefas diversas. Ainda que tenhamos vários componentes inatos, em certo grau, podemos desenvolver tais inteligências que, em certa época ou momento de nossas vidas, se fazem mais necessárias. 

Gardner difere as inteligências de simplesmente talento, que seria um superdesenvolvimento de alguma das inteligências em alguns indivíduos, e dividiu as Inteligências em grupos:



Lógico-matemática 
A capacidade de confrontar e avaliar objetos e abstrações, discernindo as suas relações e princípios subjacentes. Habilidade para raciocínio dedutivo e para solucionar problemas matemáticos. Cientistas possuem esta característica. Caracterizadas pelo gosto e pela competência na interpretação e na categorização dos fatos e da informação, no cálculo, no raciocínio lógico e na busca de explicação para tudo. Sentem-se desafiadas perante problemas envolvendo raciocínio, que procuram resolver de forma metódica e persistente. Divertem-se a resolver os “quebra-cabeças” das revistas e dos jornais, entre outros.

Linguística
Caracteriza-se por um domínio e gosto especial pelos idiomas e pelas palavras e por um desejo em os explorar. É predominante em poetas, escritores, e linguistas, como T. S. Eliot, Noam Chomsky, J. R. R. Tolkien, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Haruki Murakami.

Musical
Identificável pela habilidade para compor e executar padrões musicais em termos de ritmo e timbre, mas também escutando-os e discernindo-os. Pode estar associada a outras inteligências, como a linguística, espacial ou corporal-cinestésica. É predominante em compositores, maestros, músicos, críticos de música como por exemplo, Ludwig van Beethoven, Leonard Bernstein, Mozart, Maria Callas e tantos outros

Espacial
Se expressa pela capacidade de compreender o mundo visual com precisão, permitindo transformar, modificar percepções e recriar experiências visuais até mesmo sem estímulos físicos. É predominante em arquitetos, artistas, escultores, cartógrafos, geógrafos, navegadores e jogadores de xadrez, como por exemplo, Alexander von Humboldt, Michelangelo, Frank Lloyd Wright, Garry Kasparov, Louise Nevelson, Helen Frankenthaler, Oscar Niemeyer, Marco Polo.

Corporal-cinestésica
Traduz-se na maior capacidade de controlar e orquestrar movimentos do corpo. É predominante entre atores e aqueles que praticam a dança ou os esportes, como por exemplo Ronaldo, Kaká, Marcel Marceau, Martha Graham, Michael Jordan, Eusébio, Messi, Sébastien Loeb.

Intrapessoal
Expressa na capacidade de se conhecer, é a mais rara inteligência sob domínio do ser humano pois está ligada a capacidade de neutralização dos vícios, entendimento de crenças, limites, preocupações, estilo de vida profissional, autocontrole e domínio dos causadores de estresse, entre outros diversos comandos de vida que permite a pessoa identificar hábitos inconscientes e transformá-los em atitudes conscientes.

Interpessoal
Expressada pela habilidade de entender as intenções, motivações e desejos dos outros. Encontra-se mais desenvolvida em políticos, religiosos e professores, como por exemplo Mahatma Gandhi, John F. Kennedy e Silvio Santos.

Naturalista
Traduz-se na sensibilidade para compreender e organizar os objetos, fenômenos e padrões da natureza, como reconhecer e classificar plantas, animais, minerais, incluindo rochas e gramíneas e toda a variedade de fauna, flora, meio-ambiente e seus componentes. É característica de biólogos, geólogos mateiros, por exemplo. São exemplos deste tipo de inteligência Charles Darwin, Rachel Carson, John James Audubon, Thomas Henry Huxley.

Existencial
Investigada no terreno ainda do "possível", carece de maiores evidências. Abrange a capacidade de refletir e ponderar sobre questões fundamentais da existência. Seria característica de líderes espirituais e de pensadores filosóficos como por exemplo Jean-Paul Sartre, Søren A. Kierkegaard,  Alvin Ailey, Margaret Mead, Bento XVI e o Dalai Lama.

Um exemplo mais óbvio e frequentemente citado é o de que o físico Stephen Hawking e o craque do futebol Leonel Messi possuem grandes inteligências, mas em campos diferentes.


Este estudo levou a uma grande movimentação no meio educacional nos últimos 30 anos, sobretudo nas questões relativas ao processo de ensino-aprendizagem, levantando a tese de que, se há diferentes inteligências, há diferentes formas de aprender e, portanto, o professor deve buscar diferentes formas de ensinar alunos diferentes.

Assim, cada professor deve, a fim de atender às características de seu grupo, procurar estratégias e metodologias variadas para conseguir ensinar os mesmos conceitos e conteúdos de formas diferentes.

Segundo a professora ADRIANGELA BONETTI, no texto Inteligências múltiplas: como potencializá-las em sala de aula, “a escola não deveria se omitir de realizar um trabalho mais sensível às necessidades e inteligências dos alunos, escudando-se no vestibular. É fato que muitos dos nossos alunos seriam bem melhor sucedidos no campo profissional se tivessem suas habilidades bem desenvolvidas, por meio de um planejamento escolar docente que levasse em conta as múltiplas inteligências.” (http://diversa.org.br/artigos/inteligencias-multiplas-como-potencializa-las-sala-aula/

Como toda teoria, embora aparentemente lógica, sua aplicação não é plenamente aceita, e recentemente um importante grupo de pesquisadores internacionais, muito embora reconheça a existência das inteligências, refuta seu uso como prática pedagógica.

Todo o foco das transformações e reformas do ensino por que vem passando a educação no mundo e, também no Brasil, está no desenvolvimento de diversas competências e habilidades, mais do que nos conteúdos propriamente ditos.

Ainda assim, o autoconhecimento de nossas Inteligências nos permitirá fazer escolhas mais concretas e a buscar um aperfeiçoamento nas áreas onde gostaríamos ou precisaríamos desenvolver.

Este é o trabalho que estamos realizando este ano com a turma da 1ª série do Ensino Médio na área de Projetos Especiais.


A partir da aplicação de um questionário individual, levantamos as características de cada um e do grupo e, então, em cada aula estamos mostrando as possibilidades de desenvolvimento das inteligências e de como estas se inter-relacionam. 
Como, por exemplo, a matemática ajuda em uma composição musical e vice-versa ou de como a identificação de uma inteligência interpessoal elevada pode levar a escolhas profissionais futuras nas áreas de relacionamento ou psicologia.

Temos procurado utilizar temas e diferentes estratégias de aula a fim de contemplar todas as inteligências pesquisadas, utilizando textos jornalísticos e crônicas, desafios matemáticos, vídeos, TEDs, jogos musicais ou o Dia Mundial da Água como tema, entre outros, evitando apenas as definições preestabelecidas.

Passada esta fase de autoconhecimento, nosso objetivo é levar o grupo a criar projetos sociais coletivos, de orientação profissional e de estudos que possam ser realizados pela interação e contribuição de cada um e de cada inteligência.

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